Consciência Negra – Contribuições para a Psicologia Clínica

No Brasil, dos mais de 200 milhões de habitantes, 53% se autodeclaram negros (ou seja, pretos e pardos). Portanto, mais da metade da população brasileira se identifica como afrodescendente. Isto significa dizer que, esta população tem uma história transgeracional permeada pela violência estrutural. Entender como estas desigualdades aparecem nas relações cotidianas, na corporeidade, nas defesas ou estruturação psíquica do indivíduo; bem como no funcionamento das Instituições e na não garantia de direitos fundamentais, identificar e nomeá-lo como o fenômeno do Racismo faz-se essencial também, no consultório.

Para a Psicologia Social, o ser humano traz consigo uma dimensão que não pode ser descartada, que é a sua condição social e histórica, sob o risco de termos uma visão distorcida. O Indivíduo é necessariamente a manifestação de uma realidade histórico-social.

Toda psicologia é social, logo entender o processo histórico brasileiro é fundamental. O Brasil foi o país a escravizar o maior número de africanos e o último país do mundo cristão a abolir a escravidão, extinguindo-a somente em 1888. São, portanto, apenas 130 anos da abolição da escravatura. Uma história recente, que aparece na estruturação das cidades e como feridas emocionais. Apesar destes dados, entre 1900 e 1950, o Brasil cultivou, com sucesso, uma imagem de si mesmo como a primeira “democracia racial” do mundo, sendo a convivência entre brancos e negros descrita como harmoniosa e igualitária. Esta concepção, tornou-se discurso oficial, mas, na verdade é um mito… (Ferreira, 2009) O mito da Democracia racial.

O Brasil é país negro! Por que a psicologia insiste em invisibilizar?

Ao observarmos a psicologia e suas linhas hegemônicas de atuação, estas predominantemente de origem europeia ou estadunidense, partem da ideia do sujeito Universal, mas que não é. Faço referência aqui ao escritor Lima Barreto, que em quase todas as suas obras literárias denunciou o racismo e as características físicas e comportamentais que a sociedade da época lhe exigia para ser aceito. Lima Barreto, desenvolveu a dependência do álcool e durante a vida teve inúmeras internações psiquiátricas.

As ciências no geral, mas a psicologia em particular é eurocêntrica, isto significa dizer que suas matrizes de pensamento e construção teórica por vezes negligenciou, patologizou e culpabilizou o indivíduo que não fosse homem, branco e burguês. Atentar-se para o fazer da psicologia e quem chega em nossos consultórios é fundamental para uma prática na saúde mental de um povo que teve sua história desvalorizada, apagada e deturpada da memória do país.

Qual espaço de escuta existe no consultório para que se possa resgatar esta história ancestral?

Compreender os afetos construídos como possibilidade de existência de um povo; estar atento para o que transborda do Inconsciente, que histórias infantis marcaram esta psique e/ou modelou esta couraça, ou ainda quais arquétipos permeiam a coletividade relacionado a raça/ etnia?

Independente do embasamento teórico é possível em todos eles, identificar conceitos que trazem a importância do olhar para a construção deste sujeito a partir de uma realidade social e relacional. Mas, porque pessoas negras ainda continuam dizendo não se sentirem ouvidas nos processos psicoterapêuticos? Que por vezes o psicólogo diz não haver racismo ou negligência falas ou padrões comportamentais que por vezes refletem as relações raciais no Brasil.
Clóvis Moura, no livro “Sociologia do negro brasileiro” refere que Os estudos sobre o negro no Brasil, nos seus diversos aspectos, tem sido mediados por preconceitos acadêmicos, de um lado, comprometidos com uma ideologia racista racionalizada, que representa os resíduos da superestrutura escravista, e ao mesmo tempo, sua continuação, na dinâmica ideológica da sociedade competitiva que sucedeu. Isto significa, que houve uma reformulação dos mitos raciais reflexos do escravismo, no Brasil por meio de uma serie de mecanismos discriminadores que sucedem na biografia de cada negro.

Importante apontar que a discussão que se faz de raça/etnia não é amparado na biologia, mas sim da sociologia; pois no Brasil, o racismo ocorre pelo fenótipo (cor da pele, olhos, tipo de cabelo, traços raciais) e não pelo genótipo (gens herdados).

O Inconsciente tem cor!

A psicologia tem muito a contribuir e obrigação de olhar para as psiques, de brancos e negros que são cotidianamente racializados. As relações que se estabeleceram desde a violência que foi a escravidão no Brasil, a constituição das relações e o exercício do afeto até o lugar de privilégio nas relações que se estabelecem. No livro “O Racismo e o negro no Brasil – questões para a psicanálise” (2017), Maria Lúcia da Silva, aponta que é preciso a inauguração de uma psicanálise brasileira envolvida com a construção de uma clínica que não recuse a realidade histórico-social de nosso país e que leve em consideração o impacto dessa história na construção das subjetividades. Para Munanga, a Psicologia brasileira é uma área que teria muito a contribuir na produção do conhecimento sobre o racismo e suas consequências na estrutura psíquica tanto de indivíduos vitimas, quanto de indivíduos discriminadores, tornando-se os fenômenos psíquicos do racismo. Bento, 2002 e Schucman, 2014, a partir de estudos sobre o sentimento de superioridade de indivíduos brancos, discutindo a branquitude na cidade de São Paulo.

No livro “Afro descendente – uma identidade em construção” (2003), Ferreira, aponta que a existência do homem pode ser vista como uma contínua tentativa de “instalar-se” de maneira segura em seu mundo e, simultaneamente, articula-se com constantes transformações, tanto o indivíduo quanto suas concepções de realidade são constituídos em suas relações interpessoais. Mostra em seus estudos que cultura é o meio universal da experiência, o que significa que o indivíduo pode assumir qualidades como “negritude” e “africanidade” como aspectos constitutivos e essenciais das construções simbólicas do homem, significando que o indivíduo usará estas teorias pessoais para aplicar em seu espaço físico, social e sobre si mesmo, como referência para localizar-se em sua existência e relacionar-se dentro de seu grupo social de maneira segura no âmbito individual e coletivo.

Portanto, branquitude e negritude, não são conceitos contrários, mas são conceitos e aspectos complementares na psique da população brasileira, que pode fazer sofrer e adoecer.

O dia 20 de novembro, no Brasil é identificado como dia da morte de Zumbi dos Palmares. Zumbi foi a principal liderança deste quilombo localizado, na serra da barriga, na região de Pernambuco que durou por mais de 100 anos. Palmares é a história de quilombo mais conhecida e mesmo com poucos registros desta forma de organização social e política, na história brasileira; tornou-se uma referência de luta, inteligência e organização para a população negra. A nomeação de Consciência negra teve a influência dos Movimentos contra o apartheid na África do Sul, de grupos que acreditavam que Consciência de quem se é (percepção de aspectos sociais, raciais, educacionais, entre outros), contribui para a construção de uma identidade positiva.

“Consciência” é um processo que envolve necessariamente pensamento e ação, mediados pela linguagem, produto e produtora da história de uma sociedade é entender sua história familiar e afetiva.

Consciência negra é perceber de maneira positiva de suas características fenotípicas e a valorização da cultura por meio do conhecimento da história negra. Contribui com esta compreensão a importante teórica, Neuza Santos, 1983, defende que “ser negro não é uma condição dada a priori. É um vir a ser. Ser negro é tornar-se negro”.

O dia 20 de novembro tem como função nos provocar a olhar para a prática clínica, os sintomas que nela chegam, bem como a sua implicação na psique de homens e mulheres, brancos e negros.
Kilomba, 2010, apresenta estratégias para romper com os diversos silenciamentos: “Existe uma máscara da qual ouvi falar muitas vezes durante minha infância. Os diversos relatos e descrições minuciosas pareciam me advertir que aqueles não eram meramente fatos do passado, mas memórias vivas enterradas em nossa psique, prontas para serem contadas. Hoje quero recontá-las. Quero falar sobre a máscara do silenciamento”.

Finalizo esta breve reflexão, que objetivou trazer contribuições de outras ciências humanas de maneira pontual, com a certeza da urgência em aprofundarmos a temática e seus desdobramentos no consultório, tanto no olhar para o cliente/paciente/analisando, como para o terapeuta, pois a população negra chega aos nossos consultórios, são ouvidas, mas por vezes não se sentem escutadas ou vistas mas por vezes não olhadas.

Por Lidiane Aparecida de Araújo e Silva– Psicóloga – CRP: 06/84164

Referências Bibliográficas:

Bento, M. A; Branqueamento e Branquitude no Brasil; Psicologia social do racismo: estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil/ Iray Carone e Maria Aparecida Bento (org); Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.

Carpigiani, Berenice; Psicologia: das raízes aos movimentos contemporâneos. São Paulo; Pioneira, 2000.

Ferreira, Ricardo Franklin; Afro-descendente: identidade em construção/ Ricardo Franklin Ferreira; São Paulo: Educ: Ro de Janeiro: Pallas, 2009.

Kilomba, Grada. “The Mask” In: Plantation Memories: Episodes of Everyday Racism. Münster: Unrast Verlag, 2. Edição, 2010.Tradução Jessica Oliveira de Jesus.
Moura, Clóvis. Sociologia do Negro Brasileiro; 1988; série fundamentos. Ed. Ática.

Psicologia Social: o homem em movimento. Silvia T.M.Lane, Wanderley Codo. Orgs. São Paulo. Brasiliense, 2004.

Sousa, Neusa Santos; Tornar-se Negro: as vissicitudes da identidade do negro brasileiro em ascenção social; RJ: Edições Graal, 1982; v.4.

Silva, Maria Lúcia; Racismo no Brasil: questões para psicanalistas brasileiros; in O Racismo e o Negro no Braisl: questões para a psicanálise/ organização Noemi Mortiz Kon, Cristiane Curi Abud, Maria Lúcia da Silva. 1ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2017.

Schuman, Lia Vainer; Entre o encardido, o branco e o branquíssimo. Branquitude, hierarquia e poder na cidade de são Paulo; São Paulo; Annablume; 2014.

Steve Biko; Escrevo o que quero; Ed. Ática; 1990.

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